Bitcoin recebe sinal de formação de fundo? ETF à vista encerra oito semanas de “sangria”: duas semanas consecutivas de entrada líquida de capital, mas riscos geopolíticos e incertezas regulatórias ainda limitam a recuperação
Os ETFs de bitcoin registraram entrada de capital pela segunda semana consecutiva, encerrando uma sequência de vendas que durou dois meses.
De acordo com a InvestingApp Brasil, após uma fuga recorde de capital que durou dois meses, os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos finalmente registraram uma sequência de entradas líquidas de recursos. Nas últimas duas semanas, os 13 ETFs de bitcoin à vista somaram cerca de US$ 273 milhões em entradas líquidas, encerrando uma sequência anterior de oito semanas consecutivas de saídas líquidas totais superiores a US$ 8 bilhões. Essa reversão ocorreu mesmo diante de uma escalada nas tensões militares entre Estados Unidos e Irã e de um dia extremo de saída líquida de US$ 425 milhões na última segunda-feira, sendo interpretada como um possível sinal de formação de fundo no mercado de criptomoedas.
No entanto, o volume de entradas ainda é modesto se comparado às saídas recentes. Diante das preocupações inflacionárias decorrentes das tensões geopolíticas, das expectativas voláteis sobre alta de juros pelo Federal Reserve e do impasse legislativo sobre regulação de criptoativos nos Estados Unidos, o preço do bitcoin continua oscilando de forma difícil na faixa entre US$ 60.000 e US$ 65.000.
Reversão de fluxo: de retirada semanal de US$ 1,79 bilhão para duas semanas consecutivas de entradas líquidas
A intensidade da reversão de fluxo atual contrasta fortemente com as saídas anteriores. Durante as oito semanas de fuga, investidores retiraram mais de US$ 8 bilhões dos ETFs de bitcoin. Na semana encerrada em 26 de junho, o saldo negativo foi de US$ 1,79 bilhão – segunda maior saída da história. O volume líquido total dos ETFs despencou de US$ 59,34 bilhões para US$ 51,08 bilhões.
A reversão começou em meados de julho. Nos últimos quatorze dias, os ETFs de bitcoin registraram aproximadamente US$ 273 milhões em entradas líquidas. Em números diários, na terça-feira houve entrada de US$ 181 milhões, na quarta-feira US$ 107,8 milhões, na quinta-feira US$ 79,15 milhões e na sexta-feira US$ 132,3 milhões — quatro sessões seguidas de fluxo positivo.

Outro ponto relevante está na distribuição do capital aportado. Dados da Santiment mostram que o fortalecimento da demanda é pulverizado entre diversas gestoras, e não exclusivo de um único produto. O FBTC da Fidelity liderou as entradas no início da reversão, absorvendo cerca de US$ 166 milhões; o ARKB teve ingresso líquido de cerca de US$ 91,8 milhões; posteriormente, o IBIT da BlackRock registrou captação diária de US$ 138,9 milhões. A melhora sincronizada dos fundos reduz a hipótese de "fluxos puramente técnicos", refletindo uma volta mais ampla do interesse institucional.
Enquanto isso, os ETFs de ether à vista apresentaram desempenho ainda mais relevante, com entrada líquida de US$ 105,4 milhões na semana passada, mantendo o ritmo dos US$ 84,42 milhões da semana anterior. Os ETFs de ethereum também vinham de oito semanas consecutivas de saída, acumulando perdas acima de US$ 1,1 bilhão.
Conforme Richard Galvin, presidente da empresa de investimentos em cripto DACM: "Dado o tamanho e a abrangência dos ETFs, eles já se tornaram um bom termômetro do sentimento do bitcoin e da indústria como um todo. Após oito semanas consecutivas de saídas, duas semanas confirmando entradas é um sinal positivo."
Recuperação técnica: Bitcoin retorna à média móvel de 200 semanas, mas ainda está 50% abaixo do topo histórico
O preço do bitcoin voltou a superar a média móvel de 200 semanas, situada em torno de US$ 63.300 — considerada uma linha divisória chave entre ciclos de longo prazo de baixa ou alta. Durante semanas, o preço da criptomoeda oscilou na faixa entre US$ 60.000 e US$ 65.000, influenciado pela incerteza macroeconômica.
Mesmo após novos ataques aéreos dos Estados Unidos ao Irã, o bitcoin mostrou resiliência no mercado asiático e, em 20 de julho pela manhã, chegou a superar temporariamente os US$ 65.000. Até a abertura das bolsas asiáticas, o preço era de cerca de US$ 64.725.

No entanto, em uma análise de prazo mais longo, o bitcoin ainda está cerca de 50% abaixo do recorde histórico de US$ 126.000 registrado em outubro de 2025. Desde o início de 2026, a queda acumulada é de aproximadamente 26%. No gráfico de 4 horas, a tendência segue lateralizada com leve viés de alta, mas sem confirmar um movimento direcional dominante. O nível de US$ 65.600 é visto como resistência crítica; sem volume para superar essa região, a possibilidade de correção permanece.
Dupla pressão geopolítica e macroeconômica: Conflito EUA-Irã reacende temor inflacionário e expectativa sobre juros segue volátil
O destaque da reversão recente de fluxos está em ela ocorrer diante de desafios tanto no cenário geopolítico quanto macroeconômico. Em 7 de julho, o Comando Central dos EUA anunciou nova ofensiva militar de larga escala contra alvos iranianos, atingindo mais de 80 pontos — incluindo sistemas aéreos, redes de comando e mais de 60 barcos da Guarda Revolucionária iraniana. Desde então, os ataques vêm sendo realizados de forma ininterrupta por oito noites até 20 de julho. Com a escalada entre EUA e Irã, o petróleo Brent voltou a ser negociado acima de US$ 90 o barril.

A tensão no Estreito de Ormuz elevou o preço do petróleo, reacendendo o temor inflacionário. Historicamente, crises na região levam investidores a reduzir exposição a ativos de risco, preferindo refúgios tradicionais como petróleo e ouro. Damien Loh, CIO da Ericsenz Capital, afirma: "O motivo pelo qual o conflito EUA-Irã é importante é porque ele pressiona as taxas de juros, e isso impacta todos os ativos de risco."

O Federal Reserve tem mantido as taxas de juros na faixa entre 3,5% e 3,75% desde o início de 2026. Apesar do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA de junho ter ficado abaixo do esperado — queda mensal de 0,4%, maior recuo desde abril de 2020 — o que chegou a reduzir as apostas de alta em julho para 15,5%, as tensões geopolíticas reacenderam o temor inflacionário e as expectativas por alta rapidamente subiram, com a probabilidade de elevação chegando a 46,5% segundo o CME FedWatch. Até 20 de julho, essa chance já havia caído para 14%.
"A possibilidade de aumento dos juros pelo Fed talvez esteja impedindo o retorno pleno do capital institucional", acrescenta Loh.
Regulação como variável: “Clarity Act” travado no Senado, chance de aprovação é de apenas 38%
Outro catalisador aguardado pelo mercado — o projeto de lei americano de ambiente regulatório de criptomoedas, chamado “Clarity Act” — segue travado no Senado. Aprovado pela Câmara em julho de 2025, com 294 votos favoráveis e 134 contrários, e aprovado no Comitê Bancário do Senado em 14 de maio de 2026 por 15 a 9, o texto ainda não foi levado à votação no plenário, restando só cerca de 20 sessões antes do recesso em 7 de agosto.
Segundo dados do Polymarket, a probabilidade de aprovação ainda em 2026 é de apenas 38%. Os republicanos têm 53 assentos, mas pelo menos dois senadores do partido devem votar contra; a liderança precisaria de, no mínimo, sete democratas dissidentes para atingir o quórum de 60 votos necessário à quebra de obstrução. Quatro pontos polêmicos seguem pendentes: regras de conduta para autoridades com exposição em cripto, resistência de órgãos de aplicação à proteção de desenvolvedores não-custodiais prevista no artigo 604, objeções do setor bancário às loopholes de stablecoin, e a vaga aberta na CFTC.

Loh aponta que, se aprovado antes do recesso, o projeto poderia representar um catalisador para a alta do bitcoin. Entretanto, conforme a janela de tempo diminui, a chance se torna mais remota.
Vale destacar que o bitcoin já foi classificado como commodity tanto pela SEC quanto pela CFTC, não dependendo diretamente do “Clarity Act” para ter clareza regulatória — o que posiciona o bitcoin como principal ativo de refúgio no universo das criptos, sobretudo frente a alternativas como XRP e Solana que enfrentam incerteza regulatória.
O paradoxo da maior detentora: Venda em massa da Strategy abala narrativa de longo prazo
Em paralelo ao retorno dos fluxos para os ETFs, outro fator-chave está em desenvolvimento: a maior detentora corporativa de bitcoin no mundo, a Strategy (MSTR.US), flexibiliza sua antiga promessa de “não vender jamais”.
Desde que anunciou, em junho, a primeira venda de bitcoins desde 2022, o preço da criptomoeda já caiu cerca de 10%. Em 6 de julho, a empresa informou a venda de 3.588 bitcoins, realizando US$ 216 milhões para pagar dividendos de ações preferenciais e ampliar reservas de caixa. Este foi o primeiro movimento de desinvestimento significativo desde o início da estratégia de acumulação em larga escala, em 2020. Em 5 de julho, o saldo total de bitcoins da empresa caiu para 843.775 unidades.
Esse movimento gera múltiplos impactos. Primeiro, a empresa tinha cerca de US$ 2,55 bilhões em caixa, optando por vender bitcoins, não por aumentar capital via emissão de novas ações — mudando radicalmente a estratégia tradicional. Segundo, a tese de valorização baseada no crescimento constante do “bitcoin por ação” foi quebrada. Terceiro, o mercado monitora o potencial risco sistêmico de vendas caso o caixa acabe, já que a empresa tem obrigações anuais de US$ 1,8 bilhão em dividendos e juros e o conselho já aprovou alienação de até 20 mil bitcoins, quota que provavelmente será atingida.
O indicador de valor mNAV da empresa caiu abaixo de 1, significando que o mercado precifica a companhia por menos do que o valor de seus bitcoins em caixa. As ações caíram 75% em um ano. Michael Saylor, fundador da Strategy, já definiu a empresa como “acumuladora eterna” de bitcoin, mas agora admite que venderia caso fosse necessário.
Formação de fundo ou armadilha?
Duas semanas seguidas de entradas em ETFs, o retorno do bitcoin acima da média móvel de 200 semanas e a resiliência diante da tensão geopolítica sugerem a construção de uma narrativa cautelosamente otimista de formação de fundo.
Porém, os riscos permanecem. O aporte de US$ 273 milhões em 14 dias ainda é muito pequeno perto dos US$ 8 bilhões que saíram nos oito ciclos anteriores. Analistas observam que, no acumulado do ano de 2026, os ETFs de bitcoin têm saldo negativo de US$ 5,4 bilhões. Para a consultoria BRN: “O fluxo de capital para ETFs é o principal termômetro. Uma tendência positiva por múltiplas semanas indicaria o retorno institucional de forma estruturada ao mercado.”
No plano macro, a atenção dos investidores está voltada para a aprovação — ou não — do aguardado “Clarity Act” pelo Congresso antes do recesso de agosto. Se aprovado, o texto pode ser um catalisador para a valorização do bitcoin. Até lá, o desempenho do preço da criptomoeda — especialmente diante da escalada entre EUA e Irã e da imprevisibilidade do Fed — determinará se a atual reação sugere uma inversão verdadeira de ciclo ou apenas mais um curto alívio temporário.
O bitcoin encontra-se em uma encruzilhada decisiva. A resistência dos US$ 65.600 será o divisor entre uma reversão de tendência ou um simples "salto do gato morto". As decisões do Fed em 29 de julho sobre os juros, a janela legislativa até o recesso do Congresso em 7 de agosto e as próximas movimentações da Strategy serão, nas próximas semanas, as principais variáveis a serem monitoradas de perto.
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