Pressionando fortemente Apple e Nvidia, para apoiar a Intel, a Casa Branca utiliza todos os meios possíveis
Nos últimos doze meses, o governo Trump interveio profundamente na gestão e expansão de clientes da Intel, pressionando gigantes da tecnologia como Apple e Nvidia e promovendo uma série de parcerias de peso para a Intel. Segundo o The Wall Street Journal em 10 de julho, este é um dos casos mais diretos de intervenção do governo dos EUA em empresas privadas de tecnologia nos últimos anos.
Desde que o CEO Lip Bu Tan assumiu o comando em março de 2025, as ações da Intel já acumularam alta superior a quatro vezes. Os negócios da empresa apresentaram melhorias claras, porém os desafios permanecem grandes — nos últimos quatro trimestres fiscais, o segmento de fundição da Intel registrou um prejuízo operacional acumulado de 10,4 bilhões de dólares.
Negociações tarifárias como “moeda de troca”; Apple é levada à Intel
No verão passado, o CEO da Apple, Cook, foi a Washington fazer lobby com o objetivo de impedir o plano do governo Trump de impor uma tarifa de 100% sobre todas as importações de semicondutores. Caso entrassem em vigor, essas tarifas aumentariam diretamente o custo dos principais produtos da Apple.
A Apple acabou sendo isentada, mas ao custo de se comprometer a investir centenas de bilhões de dólares adicionais nos EUA. No entanto, segundo matérias do The Wall Street Journal baseadas em fontes do próprio governo, durante a reunião com Cook, Trump e o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, fizeram outra exigência: queriam que a Apple utilizasse as fábricas da Intel para produzir parte de seus chips.
Na sequência, Trump anunciou no Truth Social que a Apple passaria a adotar chips fabricados pela Intel. Ele escreveu: "Eu decidi ajudar a Intel, porque precisamos projetar e fabricar nossos chips em território americano."
Uma fonte afirmou que a Apple pretende que a Intel fabrique chips tanto para Macbooks quanto para iPhones. Segundo a reportagem, o vínculo entre as negociações tarifárias e a potencial parceria Apple-Intel nunca havia sido divulgado até então.
Governo se torna acionista e promove movimento de Nvidia e SpaceX
Em paralelo ao avanço das negociações com a Apple, o governo dos EUA tomou uma atitude ainda mais direta — converteu US$ 9 bilhões em subsídios federais em uma participação de 10% na Intel, tornando-se seu maior acionista.
Esse movimento teve efeito imediato de demonstração.
Em setembro do ano passado, a Nvidia anunciou um investimento de US$ 5 bilhões na Intel e adquiriu seus chips personalizados para data centers. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, classificou a parceria como “histórica”.
Em abril deste ano, a SpaceX de Elon Musk divulgou que a Intel integraria seu plano de fabricação "Terafab" para ajudar no “projeto, fabricação e encapsulamento em larga escala de chips de altíssimo desempenho”.
O SoftBank do Japão também aportou US$ 2 bilhões na Intel em agosto do ano passado.
Esses aportes são extremamente significativos. Segundo executivos da Intel, sem a imediata injeção de capital oriunda da conversão acionária, somada aos investimentos da Nvidia e SoftBank, a empresa teria sido obrigada a reduzir drasticamente seus investimentos de capital no último ano.
Departamento de Comércio se envolve de perto, monitorando avanços da fundição
A intervenção da Casa Branca vai além de promover negociações e avança para o cotidiano do negócio.
De acordo com reportagens, Lip Bu Tan vai aproximadamente uma vez por mês a Washington para reuniões com representantes do Departamento de Comércio e mantém contato regular com o secretário Lutnick para reportar sobre relações com clientes e avanços dos negócios.
O “czar dos chips” do Departamento de Comércio e banqueiro de investimentos veterano no setor de semicondutores, Bill Frauenhofer, participa ainda mais ativamente — ele recebe relatórios trimestrais do CFO da Intel, David Zinsner, enquanto membros de sua equipe se reúnem regularmente com executivos da Intel em Washington e na sede em Santa Clara, acompanhando o avanço das novas tecnologias de fabricação.
Os representantes do Departamento de Comércio deixam claro que desejam que mais fabricação de chips permaneça nos EUA, em vez de ser realizada em Taiwan, Coreia do Sul ou Japão. Estão especialmente atentos ao negócio de fundição da Intel e impulsionam a ampliação da capacidade de encapsulamento avançado na fábrica do Novo México.
Para a Intel e o governo, o encapsulamento avançado é considerado a melhor entrada para competir com a TSMC. O CFO da Intel, Zinsner, afirmou na teleconferência de resultados de janeiro deste ano que a expectativa é que as receitas provenientes do encapsulamento avancado tragam bilhões de dólares em breve ao negócio de fundição, “isso é muito mais empolgante do que eu previa”.
As reformas internas de Lip Bu Tan: corte de gastos, reestruturação e recrutamento de rivais
Além do respaldo do governo, Lip Bu Tan está promovendo uma ampla transformação interna.
Em setembro do ano passado, ele reestruturou o organograma da Intel, criando o novo “Grupo Central de Engenharia”, recrutou o renomado engenheiro de chips Srinivasan Iyengar da Cadence para integrar o design de chips personalizados em uma equipe unificada.
Também recrutou em larga escala executivos de concorrentes como a Samsung e a SK Hynix, e conferiu maiores poderes ao engenheiro Naga Chandrasekaran — que tem ampla experiência em tecnologia de semicondutores e tornou-se o principal responsável comercial da área de fundição.
Na estratégia de alocação de capital, Lip Bu Tan deslocou o foco dos investimentos da construção de novas fábricas para a aquisição de equipamentos de fabricação de precisão, buscando aumentar a capacidade de produtos campeões de vendas como CPUs para notebooks e data centers.
Os primeiros resultados já apareceram. Em abril, a Intel reportou um crescimento anual de 22% na receita do segmento de data center, atingindo US$ 5,1 bilhões, e o Google Cloud anunciou a compra em larga escala de CPUs Intel Xeon para cargas de trabalho em IA. Mark Lohmeyer, vice-presidente de IA e infraestrutura de computação do Google Cloud, afirmou: “Quando eles ouvem nosso feedback e implementam melhorias, isso aumenta ainda mais nossa expectativa em colaborar com eles.”
Porém, a Intel registrou prejuízo líquido de US$ 3,7 bilhões no mesmo trimestre.
Até onde vai a “escolha” do governo americano?
Esse processo de apoio governamental à indústria não tem passado sem críticas.
Scott Lincicome, advogado especializado em comércio e política industrial do Instituto Cato, alerta que a forte intervenção da Casa Branca nas decisões comerciais de empresas como Apple e Nvidia pode criar um precedente negativo, “especialmente se a Intel não conseguir consertar sua divisão de fundição”.
Ele é direto: “Ser o queridinho do governo só funciona quando você entrega resultados. Para Lip Bu Tan, o risco é que, se as coisas começarem a dar errado, o tempo dos políticos é curto.”
Por outro lado, Jacob Feldgoise, analista sênior de pesquisa do Centro para Segurança e Tecnologia Emergente da Universidade de Georgetown, é mais otimista: “Do ponto de vista tecnológico, parece que a Intel está ganhando cada vez mais credibilidade e confiança. Cada novo cliente comprometido, cada novo processo de fabricação lançado, os sinais são cada vez mais positivos.”
A maior incógnita do mercado segue sendo se a Intel conseguirá transformar o respaldo do governo em uma vantagem competitiva de longo prazo.
Aviso Legal: o conteúdo deste artigo reflete exclusivamente a opinião do autor e não representa a plataforma. Este artigo não deve servir como referência para a tomada de decisões de investimento.
Talvez também goste



A “tempestade da dívida” global assola o mercado, colocando à prova a precificação dos ativos de risco
A “tempestade da dívida” global está chegando: os rendimentos dos títulos de longo prazo dos EUA, Japão e Alemanha disparam para máximas de várias décadas. A onda de emissões de dívida por parte de empresas de IA e o ressurgimento da inflação pressionam o “âncora de precificação” dos ativos.

