Ex-diretor do Federal Reserve revela: chances de aumento de juros pelo Fed em setembro são de 50%
Investing.com Brasil, 31 de agosto—— O ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, Jim Bullard, disse na última sexta-feira (28 de agosto) que a decisão do FOMC sobre aumentar ou não os juros em setembro está quase dividida, com muitos membros indecisos sendo persuadidos por ambos os lados. Após Warsh assumir a responsabilidade pela inflação dos últimos 65 meses, a probabilidade de aumento em setembro subiu de 36% para cerca de 60%, enquanto o ouro à vista caiu 3,2% em apenas um dia, para US$ 4.454,23. Bullard acredita que o gráfico de pontos de setembro é o verdadeiro ponto-chave, podendo adotar uma postura de espera, mas ainda assim transmitir o tom de aperto ao longo do ano. Ele também mencionou que o ouro é como um boletim de confiança do mercado no Federal Reserve, que bancos centrais estrangeiros ainda preferem ouro físico e questionou dados de emprego.
Uma pessoa que passou 15 anos na sala de reuniões do Federal Reserve trouxe uma rara visão interna sobre a contagem de votos: O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) está praticamente dividido sobre aumentar os juros em setembro.
O ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, Jim Bullard, afirmou na última sexta-feira (28 de agosto): "Acho que o comitê está mais ou menos 50 a 50, 10 a 9, podendo ir para qualquer lado. Muitos membros indecisos podem ser convencidos por ambos os lados."
Warsh assume 65 meses de inflação, mercado reage imediatamente
Esta foi a declaração pública mais próxima de uma contagem interna de votos na semana passada, ocorrendo num momento em que o mercado já acreditava que a disputa tinha terminado. O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, afirmou no simpósio de Jackson Hole promovido pelo Federal Reserve de Kansas City: "A responsabilidade dos 65 meses de alta inflação é do banco central, como deve ser." Após essa fala, o CME FedWatch Tool mostrou que a probabilidade de aumento em setembro saltou de cerca de 36% para cerca de 60%, enquanto a de corte praticamente zerou.
O registro público faz parecer que os falcões são minoria. Em 29 de julho, o comitê votou por 9 a 3 para manter as taxas pela quinta vez consecutiva; Beth Hammack (Federal Reserve de Cleveland), Lorie Logan (Federal Reserve de Dallas) e Neel Kashkari (Federal Reserve de Minneapolis) votaram contra e a favor do aumento; Jeff Schmid, do Federal Reserve de Kansas City, também se declarou na ala mais dura na semana passada. Mas Bullard acredita que há muito mais indecisos do que a lista de votos mostra.
Bullard comandou o Federal Reserve de St. Louis de 2008 a 2023 e, em março de 2022, votou contra por considerar as ações do comitê lentas; atualmente, é reitor da Daniels School of Business da Purdue University.
Esperar também pode ser hawkish, o gráfico de pontos é o crucial
A frase mais relevante de Bullard foi o alerta para quem encara a reunião de setembro como uma escolha binária. Bullard disse: "Você pode muito bem manter as taxas paradas, mas ainda assim ser bastante hawkish. Você pode dar pistas de que tomará alguma atitude nas reuniões de outubro ou dezembro."
O mecanismo está no gráfico de pontos, atualizado a cada trimestre, onde cada decisor indica sua expectativa para a taxa de juros até o fim do ano; setembro é precisamente a reunião do gráfico de pontos.
Bullard apontou: "O irônico é que a reunião de setembro é a que mais oferece guidance, porque o gráfico de pontos reflete os planos para a taxa de fundos federais até o fim de 2026."
Bullard achava que Warsh poderia abolir o gráfico de pontos na última sexta-feira, mas isso não aconteceu. Sobre qual risco é maior: anunciar aumento e não entregar, ou não anunciar nada após o discurso, ele prefere não tomar partido: "Vejo como um empate." Ele também evitou caracterizar o presidente como incoerente, ao afirmar que Warsh é contra declarações muito explícitas: "Se ele vier hoje e disser que haverá ou não aumento em setembro, estará delimitando demais o que o comitê poderá realmente fazer."
Bullard acredita que o motivo para apertar mais não depende dos próximos dados. Segundo ele: "O comitê já deixou claro que, até o final do ano, o melhor que pode conseguir com a inflação PCE subjacente é chegar muito próximo a 3%, uma situação semelhante à de dezembro de 2023, 2024 e 2025. Em essência, não houve avanço algum." Três anos estagnados: o índice PCE subiu 3,7% nos últimos 12 meses, enquanto a taxa anualizada de seis meses chegou a 4,1%, mostrando aquecimento recente.
O ouro é o boletim do Federal Reserve, e o Fed está de olho
O discurso de Warsh na semana passada equivale a admitir a responsabilidade do banco central pela inflação. Bullard explica como esse reconhecimento se reflete nos preços: "O ouro ainda pode ser um indicador de confiança no Federal Reserve. Quando a credibilidade está sob risco, normalmente vemos o preço do ouro subir." Um ex-membro votante chama o ouro de termômetro; quem deveria ser avaliado está atento à nota — argumento antigo entre detentores de ouro, frequentemente descartado como puro sentimento de mercado.
Bullard também mapeia os compradores reais, que não estão em Washington. Nos últimos vinte anos, bancos centrais têm sido compradores líquidos de ouro e atualmente detêm mais de 1 bilhão de onças. "Nos EUA isso raramente se fala, mas lá fora é um tema importante: bancos centrais estrangeiros podem preferir ouro a títulos americanos e de fato estão diversificando", diz ele. Trata-se mais de gerenciamento de portfólio do que de política.
Os EUA possuem cerca de 261 milhões de onças de ouro, valoradas oficialmente a US$ 42,22 a onça, valor que apenas o Congresso pode alterar — algo em torno de US$ 11 bilhões, mas pelo preço de mercado da última sexta é superior a 1 trilhão de dólares. Bullard comenta: "Por que não usar o valor de mercado? Todos sabem o preço atual, é sempre melhor registrar pelo valor real, não distorcer os números. Imagino que o Congresso precise agir." Sua condição é que a disciplina valha para ambos os lados: se o preço cair muito, que seja ajustado para baixo.
Finanças e dados: dois grandes alertas
No tocante ao fiscal, a mensagem de Bullard é: a pressão sobre os juros longos é estrutural, e intervenções pontuais não vão resolver. A partir de 9 de setembro, o Tesouro dos EUA dobrará o volume de recompra de títulos de 10 a 30 anos, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões em cada operação, mas Bullard crê que isso terá pouco efeito e se alinha ao investidor Stan Druckenmiller, que criticou o plano na última semana. "Intervir num mercado global imenso, repleto de compradores estrangeiros, é extremamente difícil. Essas são ações pontuais; o que realmente faz o preço de mercado são as políticas fundamentais, não acredito que isso afete a tendência de longo prazo." Segundo ele, é possível mexer com o mercado no curto prazo, mas não com a tendência.
Ele afirma: "Quem está realmente tomando dívidas em larga escala são o Congresso e o presidente, com um déficit de 6% sem previsão de recuo, e parece não haver preocupação alguma no sistema político para contê-lo." A dívida federal total ultrapassou US$ 40 trilhões este mês, com cerca de US$ 32,3 trilhões em poder do público, e Bullard prevê que ela pode atingir "120% ou 150% do PIB". Sobre se resguardar a independência do Federal Reserve significa ter que aumentar os juros mesmo que isso eleve custos para Washington, ele responde: "Ah, com certeza. Todo político que conheci quer juros mais baixos; mesmo em tempos de juro zero havia lobby para mais cortes."
O Federal Reserve ainda decide baseando-se nos dados que Bullard considera parcialmente falhos. Segundo revisão anual da Bureau of Labor Statistics, os dados de emprego do ano passado ficaram 79.000 vagas abaixo do reportado, com revisão para baixo de 178.000 no setor privado e aumento de 99.000 no público. "Não dá mais para confiar no payroll como antes; as políticas de migração mudaram drastically, e o ritmo do payroll caiu de 100 mil ou 150 mil para próximo de zero. Vamos ter que aceitar meses negativos, o que não significa necessariamente que o mercado de trabalho esteja ruim." Essa declaração deve mudar todos os "payroll Fridays" daqui para frente: números negativos podem não significar problemas. Sobre o levantamento da Universidade de Michigan — com expectativa de inflação de 4% em um ano, 3,3% em cinco a dez anos e indicador de confiança em 51,7 — Bullard fica ao lado do mercado: "Prefiro ouvir o mercado, que aposta dinheiro de verdade e define o preço do risco inflacionário. A pesquisa de Michigan perdeu credibilidade; os entrevistados refletem mais um sentimento político do que decisões financeiras reais."
Warsh também trouxe de volta ao debate o papel do volume de moeda em circulação, e Bullard acredita que Warsh fala sério, destacando o crescimento do M2 — "em 2020 e 2021 disparou, depois despencou", antecipando a inflação que se seguiu.
Conclusão: metais preciosos sob pressão, boletim ainda indefinido
Juntando tudo, temos um banco central que assume os erros dos últimos cinco anos e meio, mas não consegue consenso sobre a resposta, desconfia das próprias bases de dados e está à mercê de um déficit orçamentário que ninguém quer atacar.
Os metais preciosos sentiram o golpe do preço hawkish — uma resposta aritmética imediata à expectativa de juros mais altos sobre ativos sem rendimento. Mas o problema mais duradouro está posto por Bullard: se o preço do ouro é uma avaliação contínua do mercado sobre a confiança no banco central, e os avaliados estão atentos a essas notas, a próxima reunião no calendário acaba sendo menos importante do que o "boletim" que o ouro entregará daqui a um ano.
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