O mercado prevê dois aumentos de juros pelo Banco Central Europeu e pelo Banco da Inglaterra ainda este ano! O rendimento dos títulos alemães atinge a maior alta em 15 anos, enquanto o rendimento dos títulos britânicos se aproxima do maior patamar em 18 anos.
O mercado interpretou a decisão do Banco Central Europeu de manter as taxas inalteradas nesta quinta-feira como uma demonstração de flexibilidade na política, ao invés do fim do ciclo de aperto monetário. Com o Brent ultrapassando novamente os US$ 100 nesta quinta-feira, o mercado já precificou dois aumentos de 25 pontos-base pelo Banco Central Europeu ainda este ano, dois aumentos de 25 pontos-base pelo Banco da Inglaterra também este ano, e mais um aumento de 25 pontos-base antes do meio do próximo ano.
A rentabilidade dos títulos públicos alemães atingiu o maior nível desde 2011, pressionando o mercado global de renda fixa. Ao mesmo tempo, embora o Banco Central Europeu tenha mantido a sua política, o mercado já começou a apostar em aumentos de juros ainda este ano.
O preço do petróleo Brent superou os 100 dólares por barril durante a coletiva de imprensa da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, aquecendo as expectativas de inflação. A rentabilidade do título alemão de 10 anos subiu até 4 pontos-base em um único dia, alcançando 3,21%, enquanto os operadores já precificaram totalmente dois aumentos de juros do Banco Central Europeu ainda este ano.

O mercado de títulos do Reino Unido também foi afetado pela recente alta dos preços do petróleo, e a rentabilidade do título de 10 anos do Reino Unido está em 5,09%, aproximando-se da máxima de 18 anos registrada em maio. Atualmente, os operadores apostam que o Banco da Inglaterra aumentará os juros duas vezes até o final do ano, para 4,25%, e deverá subir novamente para 4,5% até meados do próximo ano.
Lagarde afirmou que, até o momento, não há sinais de "efeitos de segunda rodada" da inflação, mas deixou claro que manteve a possibilidade de aumento dos juros em setembro. Essa declaração reforçou as expectativas de incerteza em relação à trajetória de política do Banco Central Europeu e pressionou ainda mais os preços dos títulos europeus.
O impacto no fornecimento de energia causado pela escalada contínua da situação no Oriente Médio está elevando os rendimentos dos títulos governamentais globalmente. A Europa, altamente dependente da importação de petróleo e gás, vê as perspectivas de inflação na zona do euro ficarem ainda mais complexas com a forte oscilação dos preços de energia, o que coloca tanto os mercados de títulos quanto de ações sob pressão.
A "pausa" do Banco Central Europeu não é o fim
O Banco Central Europeu manteve sua taxa básica de juros em 2,25%, mas o mercado interpretou essa pausa como uma preservação da flexibilidade de política, e não como o fim do ciclo de aperto monetário.
Madison Faller, estrategista global de investimentos do J.P. Morgan, afirmou: "A pausa de hoje do Banco Central Europeu deve ser entendida como manter o pé acima do freio. Deixar aberta a possibilidade não deve ser confundido com autocomplacência."
Na Alemanha, planos de investimento em defesa e infraestrutura na casa das centenas de bilhões de euros estão avançando rapidamente, e as grandes emissões de títulos continuam sustentando a alta dos rendimentos.
Alguns analistas acreditam que, caso esses gastos impulsionem o crescimento econômico da Alemanha e dos países vizinhos, a necessidade de aumento de juros pelo Banco Central Europeu ficará ainda mais evidente.
A venda dos títulos já está excessiva?
Embora os rendimentos continuem subindo, alguns investidores já consideram que o ajuste do mercado europeu de renda fixa foi além do que os fundamentos justificam.
Ed Hutchings, chefe de renda fixa da Aviva Investors, comentou: "Os títulos europeus começam a mostrar valor, e o aumento de posições está se tornando atraente, ainda que seja preciso alguma cautela no curto prazo."
Niall Scanlon, gestor de portfólio da Mediolanum, admitiu que a forte alta dos preços da energia bagunçou sua estratégia. "Mantivemos sobreposição na ponta curta baseados nas expectativas do Banco Central Europeu, mas isso claramente não funcionou", disse ele. "Os preços do petróleo e gás já se moveram bastante, precisamos respeitar essas tendências."
Scanlon também destacou que o mercado está superestimando os aumentos de juros por parte do Banco Central Europeu.
A correlação entre o preço do petróleo e os juros volta ao destaque
Skylar Montgomery Koning, estrategista macro da Bloomberg, apontou que as taxas de juros da Europa e do Reino Unido voltaram, em essência, ao padrão de negociação correlacionado ao preço do petróleo bruto.
Ela ressalta que os rendimentos na ponta curta mostram maior resiliência quando o petróleo recua, apresentando volatilidade menor do que durante o forte aumento registrado em maio. Porém, se os preços do petróleo continuarem a subir, o sinal transmitido pela correlação é claro: o aumento do petróleo voltará a ser obstáculo tanto para o mercado de títulos quanto para o de ações.
O mercado dos Estados Unidos também não escapa à pressão. Os rendimentos dos títulos do Tesouro de longo prazo já se mantêm acima de 5% há mais de uma semana, sendo o maior período desde 2007, e o Federal Reserve irá realizar sua reunião de política de juros na próxima semana.
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