Think tank dos EUA afirma que o salário mínimo americano tem o menor poder de compra em 70 anos e já se tornou um “salário de pobreza”
Fonte: Relatório Global de Mercados
O Centro de Pesquisa Econômica e Política dos EUA (CEPR) destacou em um relatório recente que julho deste ano marca o 17º ano consecutivo em que o salário mínimo federal se mantém em US$ 7,25 por hora. Com a inflação crescente e sem reajuste nos salários básicos, isso faz com que o poder de compra real do salário mínimo atinja o nível mais baixo em 70 anos, muito abaixo do pico histórico registrado em 1968.
A economista sênior do CEPR, Sylvia Allegretto, escreveu: “Desde a criação do salário mínimo federal em 1938, vivemos o período mais longo de estagnação da política. Na verdade, o atual salário mínimo federal já se tornou um salário de pobreza.”
De fato, no ano passado, o salário mínimo federal já havia se tornado um “salário de pobreza”, o que significa que mesmo em um emprego de tempo integral durante todos os meses do ano, com uma remuneração de US$ 7,25 por hora, a renda anual fica abaixo da linha de pobreza estabelecida pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, que é de US$ 15.650.
Com o aumento da inflação causado pelas tarifas e pelo conflito no Irã, além dos altos preços de imóveis e custos de cuidados infantis, uma crise de acessibilidade contínua faz com que o salário mínimo volte a ser foco de atenção em todo os EUA. Segundo dados do Federal Reserve de Atlanta, uma das dificuldades enfrentadas pelos norte-americanos é o estagnação no crescimento dos salários, cuja taxa de crescimento caiu de 6,7% em julho de 2022 para 3,6% no mês passado.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center em 2021, a maioria dos norte-americanos apoia o aumento do salário mínimo federal, sendo que 62% defendem uma remuneração mínima de US$ 15 por hora. Entre os que se opõem ao salário mínimo de US$ 15, a maioria ainda acredita que o salário mínimo deveria ser superior a US$ 7,25, embora não necessariamente chegue a US$ 15.
Além disso, a reivindicação pelo aumento dos salários tem sido uma pauta constante entre o eleitorado dos EUA. O vereador de Nova York, Zohran Mamdani, sugeriu fixar o salário mínimo em US$ 30, como parte de sua campanha para prefeito, planejando aumentar o piso salarial da cidade de US$ 16,50 para US$ 30 até 2030.
Problemas trazidos pelo salário mínimo historicamente baixo
A economista sênior Allegretto explica que, embora 30 estados e o Distrito de Columbia tenham salários mínimos superiores ao padrão federal, os estados que seguem o piso de US$ 7,25 estão concentrados principalmente no sul do país, regiões onde as taxas de pobreza são das mais altas dos EUA. No Mississippi, mais de um quarto da força de trabalho recebe menos de US$ 15 por hora, enquanto em Arkansas, Oklahoma e Alabama, um em cada cinco empregos está nessa faixa salarial.
A relação entre salários baixos e altas taxas de pobreza é amplamente estudada: Uma pesquisa dos economistas do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA, Ralph E. Smith e Bruce Vavrichek, em 1987, revelou que, à época, 20% dos trabalhadores assalariados por hora (com salários de US$ 3,35 ou menos) tinham renda inferior à linha de pobreza norte-americana. Segundo o Center for American Progress, um think tank de políticas públicas, a pobreza infantil reduz o PIB em cerca de 1,3% ao ano, comprometendo a produtividade e o desempenho econômico.
Os opositores ao aumento do salário mínimo argumentam que, na prática, os salários de mercado já aumentaram naturalmente acompanhando a inflação e o crescimento da produtividade. Conforme cálculos do Cato Institute, até janeiro, o salário mínimo médio era de US$ 12,13. Pesquisadores apontam que aumentos compulsórios podem reduzir as oportunidades de emprego para trabalhadores de baixa qualificação, aumentar os preços ao consumidor e elevar o desemprego devido ao maior custo da força de trabalho.
Essas preocupações se concretizam na Califórnia, onde o governador Gavin Newsom sancionou, em 2024, uma lei estabelecendo o salário mínimo de US$ 20 para trabalhadores do setor de fast-food. Estudos, como o relatório de novembro de 2025 do Cato Institute, citando dados do Bureau de Estatísticas do Trabalho dos EUA, apontam que após a implementação da lei de salário mínimo de US$ 20, o setor de fast-food perdeu 18 mil postos de trabalho em comparação com outros segmentos.
Outros economistas acreditam que as críticas ao aumento dos salários são exageradas. Um estudo preliminar da Universidade da Califórnia em Berkeley, divulgado no início deste ano, revelou que a nova política da Califórnia elevou o salário semanal médio dos trabalhadores elegíveis em cerca de 11%, sem afetar significativamente o emprego. Os preços subiram aproximadamente 1,5%, ou seja, um produto de US$ 4 passou a custar US$ 0,06 a mais.
A política de salário mínimo da Califórnia pode ser um indício de que outras regiões dos EUA seguirão pelo mesmo caminho. Um relatório do National Employment Law Project constatou que cerca de vinte estados devem aumentar o salário mínimo em algum momento deste ano.
“Muita gente está atenta ao que acontece na Califórnia,” afirmou Michael Reich, diretor do Centro de Dinâmicas de Salários e Emprego da Universidade da Califórnia em Berkeley e autor da pesquisa. “Isso pode servir de modelo para outras partes do país.”
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