Prévia de resultados financeiros | De coadjuvante da IA ao protagonista da fabricação de chips nos EUA, será que a Intel (INTC.US) conseguirá impulsionar seu preço de ação no 2º trimestre com a ascensão das CPUs e o boom das foundries?
Para a perspectiva das ações da Intel, o cenário otimista exige que a receita e o lucro por ação do segundo trimestre superem as projeções, que a DCAI (negócios de Data Center e IA) continue acelerando, que a margem bruta melhore e que a administração confirme o rendimento do 18A e o progresso com clientes externos.
Após uma forte correção das ações da gigante tradicional de fabricação de chips dos EUA, Intel Corporation (INTC.US), desde os picos históricos de junho, a relação risco-retorno já melhorou em relação a meses anteriores. Com a demanda robusta por CPUs de data center, expansão das relações com clientes de foundry e os elevados investimentos em infraestrutura de capital para a indústria de IA, os analistas de Wall Street estão cada vez mais otimistas tanto em relação ao preço das ações quanto aos fundamentos da Intel. A maioria dos analistas aposta que o balanço do segundo trimestre, que será divulgado após o fechamento do mercado dos EUA em 23 de julho, superará as orientações anteriores da empresa e que a perspectiva de crescimento futuro apresentada pela administração também será superior às expectativas consensuais do mercado.
Vale notar que a lógica de investimento da Intel está passando por uma mudança fundamental: o mercado já não a vê apenas como uma tradicional fabricante de processadores centrais para eletrônicos de consumo, esperando pela recuperação do ciclo de PCs. Agora, a empresa está sendo reavaliada como uma plataforma completa de infraestrutura para capacidade computacional de IA, combinando CPUs para servidores de data centers, manufatura e foundry de chips de processos avançados e encapsulamento de ponta. Por isso, o gigante financeiro internacional HSBC elevou seu preço-alvo para as ações da Intel em impressionantes 100%, para 200 dólares – o preço-alvo mais alto entre os analistas de Wall Street para a empresa. Assim, a Intel volta a ser uma das ações de semicondutores mais observadas tanto por investidores institucionais quanto por varejistas ao redor do mundo.
No momento em que agentes de IA (Agentic AI) ganham destaque rapidamente no mundo, e gigantes de computação em nuvem, além de líderes em aplicações como a Anthropic, ampliam seus investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, impulsionando uma onda global de construção de data centers de IA, o HSBC emitiu essa avaliação positiva e agressiva. Essa também é a lógica central por trás das visões otimistas de bancos como Citi e Bank of America em relação à valorização das ações da Intel.
Apesar da Nvidia (NVDA.US) continuar dominando o mercado de infraestrutura de GPUs para IA, os gastos com dados, CPUs para data centers, encapsulamento avançado e capacidade de manufatura de semicondutores estão se tornando cada vez mais críticos na cadeia de fornecimento de poder computacional de IA. O HSBC acredita que a Intel pode se beneficiar da tendência crescente e sustentada por CPUs de data centers impulsionada pelos agentes de IA e da expansão global de capacidade fabril de semicondutores de IA capitaneada por iniciativas como a “superfábrica de chips” Terafab de Elon Musk.
Barreira de resultados: Este não é um balanço comum, mas um teste de estresse para a credibilidade da avaliação
A orientação oficial da Intel para o segundo trimestre é de receita entre US$ 13,8 bilhões e US$ 14,8 bilhões, com a mediana em US$ 14,3 bilhões; margem bruta não-GAAP em torno de 39% e lucro por ação não-GAAP de US$ 0,20. No primeiro trimestre, a empresa reportou receita de US$ 13,6 bilhões, crescimento anual de 7% e lucro por ação não-GAAP de US$ 0,29, superando as próprias expectativas pela sexta vez consecutiva – o que serviu de ponto de partida para a visão consensualmente otimista dos analistas de Wall Street neste trimestre.
No entanto, o verdadeiro desafio deste balanço é significativamente maior do que o indicado pela própria empresa. Após o outlook melhor do que o esperado apresentado no primeiro trimestre, as ações da Intel chegaram a subir 19% após o expediente; depois, estimularam uma rápida alta devido ao frenesi por chips de IA, políticas de manufatura doméstica nos EUA e expectativas de possíveis pedidos de foundry. Mesmo após uma queda para cerca de US$ 95 em 17 de julho, o papel acumula alta de mais de 160% no ano, enquanto o Índice de Semicondutores da Filadélfia caiu mais de 20% desde o topo de junho, entrando em um mercado em baixa técnico.
Em outras palavras, o mercado hoje não se contenta com a Intel apenas “alcançando” US$ 14,3 bilhões e US$ 0,20, mas exige que a administração também prove crescimento de receitas, melhoria de margens de lucro e sustentabilidade nas projeções de desempenho futuro, especialmente trazendo pedidos concretos que demonstrem perspectivas para CPUs de data center, foundry de chips lógicos de processos avançados e encapsulamento muito superiores ao consenso do mercado. Caso contrário, mesmo um balanço acima das expectativas pode acabar desencadeando uma realização de lucros, como ocorreu recentemente com resultados positivos de Samsung e TSMC.
O P/L projetado da Intel está em cerca de 87 vezes, menor que o patamar extremo de cerca de 120 vezes registrado anteriormente, mas ainda distante do múltiplo típico de empresas de valor para este papel.

Para analistas de Wall Street, a lógica de investimento na Intel é, na essência, uma “operação de recuperação do denominador do P/L projetado”: desde que o ritmo de crescimento dos lucros supere substancialmente o ritmo de valorização das ações, o múltiplo P/L pode cair rapidamente mesmo com o preço das ações mantido firme; se, por outro lado, os lucros demorarem a se materializar, esse valuation esticado amplificará quaisquer contratempos operacionais. Dados compilados por instituições mostram que o P/L projetado da Intel ainda está muito acima de sua média histórica, e, por isso, a revisão para cima dos preços-alvos por Wall Street é mais uma aposta especulativa na alteração da inclinação dos lucros futuros do que um investimento seguro fundamentado em fluxo de caixa livre atual ou valuation estático.
A nova onda de “Renascença das CPUs”: Agentic AI está recolocando a Intel no centro da cadeia de valor da IA
Nos últimos dois anos, a narrativa sobre IA foi quase monopolizada pelas GPUs, deixando as CPUs relegadas ao papel de coadjuvantes na corrida armamentista da IA. Contudo, com a ascensão de workflows de IA baseados em agentes open source como o OpenClaw (Agentic AI), e a expansão do uso de inferências, orquestração de dados, escalonamento de tarefas, acesso à memória, comunicações em rede e múltiplas chamadas de ferramentas, o mercado percebeu: sem CPUs potentes atuando como o cérebro do sistema, clusters de GPUs não operam eficientemente. Isso representa não apenas um retorno das CPUs ao centro do palco dos chips, mas uma verdadeira nova “Renascença” desse segmento.
Essa “Renascença das CPUs” não é uma mera recuperação do ciclo dos PCs, mas uma mudança estrutural: de um foco em treinamento de IA para inferência e, agora, para sistemas inteligentes. As GPUs continuam responsáveis pelo cálculo de matrizes e geração de modelos, enquanto agentes inteligentes precisam realizar chamadas de ferramentas, execução de código, consultas, acesso a bancos de dados, escalonamento, gestão de memória e orquestração de múltiplos processos – funções onde as CPUs reassumem um papel central como gargalo de throughput. Segundo comentários internos compartilhados pela gestão da Intel à Tom’s Hardware, a proporção CPU:GPU em servidores de IA já mudou de 1:8 para 1:4, podendo chegar a 1:1 em aplicações de agentes inteligentes; isso significa que clusters de GPU demandarão cada vez mais CPUs de servidores, impulsionando diretamente a demanda, lead time e preços da linha Xeon.
A recente alta nos preços das CPUs para servidores da Intel indica que ela está conseguindo capturar parte do valor dessa nova demanda, e não apenas repassar custos. Enquanto alguns SKUs da linha Core Ultra 200S Plus para consumidores subiram de US$ 30 a US$ 50, os aumentos mais substanciais aconteceram nos CPUs Xeon para data centers: segundo Tom’s Hardware, o Xeon 6980P agora tem preço sugerido de US$ 13.955, acima dos US$ 12.460 de 2025, aumento de US$ 1.495. A Intel não aumentou o preço de toda a família Arrow Lake, mas fez ajustes seletivos apenas em SKUs que os clientes estão dispostos a pagar mais, o que reflete uma realocação do mix de produtos e pesos de preço devido à oferta restrita.
O maior ponto positivo comprovado atualmente para a Intel não é o foundry externo, mas o ressurgimento estrutural da demanda por CPUs de data center. No primeiro trimestre, a receita proveniente de data centers e IA chegou a US$ 5,1 bilhões, um aumento anual de 22%, bem acima do crescimento de 1% no negócio tradicional de computação cliente. Durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre, a administração destacou que a migração dos modelos fundacionais para inferência e agentes inteligentes de IA está gerando aumento expressivo na demanda por CPUs, wafers e encapsulamento avançado.
Durante a 54ª Conferência Anual de Tecnologia, Mídia e Comunicação Global promovida pelo JP Morgan, o CEO da Intel, Pat Gelsinger, afirmou que o processo Intel 18A (nó de fabricação de chips avançado de menos de 2 nm, na faixa de 1,8 nm) já suporta produção em massa de Panther Lake, com yield aumentando cerca de 7% ao mês, acima das expectativas internas. Gelsinger também comentou que, conforme o foco da infraestrutura de IA muda do treinamento para a inferência, as CPUs estão se tornando cada vez mais essenciais: a relação CPU:GPU acelera de 1:8 para 1:1, podendo chegar a 4:1.
O último resultado da TSMC oferece validação cruzada industrial para esse diagnóstico. No segundo trimestre, a receita cotada em dólares da TSMC atingiu US$ 40,2 bilhões, no topo do guidance, com margem bruta de 67,7%, esperando ainda aumentar o faturamento total para US$ 44,6 a US$ 45,8 bilhões no terceiro trimestre – acima das expectativas consensuais. A administração da TSMC continua enfatizando que a demanda por IA será de múltiplos anos e destacou que agentes inteligentes estão reacelerando a demanda por CPUs de data center e capacidade de computação de IA. Isso comprova que a infraestrutura de IA está evoluindo de um simples empilhamento de GPUs da Nvidia para um sistema engenheirado de expansão conjunta de GPUs, CPUs, infraestrutura de rede Ethernet, chips de armazenamento, comunicação óptica de data center e encapsulamento avançado 2.5D/3D – criando demanda real para a linha Xeon da Intel.
Adicionalmente, se a receita de data center da Intel crescer mas a margem bruta se mantiver em torno de 39%, o mercado pode entender que o incremento da receita foi diluído por custos de manufatura, mix de produtos ou restrições de oferta; somente se o mix e o preço médio dos Xeons forem superiores ao esperado, e o crescimento total de receita vier acompanhado de melhora nas margens, será possível ver o ressurgimento da demanda de CPUs refletido diretamente nos lucros da Intel.
18A e foundry: A história dos pedidos precisa passar pelo teste de yield e fluxo de caixa
O negócio de foundry (terceirização da produção) de chips segue sendo o principal determinante do valuation máximo da Intel, mas também sua maior fonte de risco. No primeiro trimestre, a divisão Intel Foundry registrou receita de cerca de US$ 5,421 bilhões, crescimento anual de 16%, mas aproximadamente US$ 5,251 bilhões foram eliminados intraempresa, indicando que a maior parte ainda vem de serviços de fabricação para produtos próprios da Intel, e não clientes externos; a divisão reportou prejuízo operacional de US$ 2,437 bilhões no período. Logo, a transição para o “modelo TSMC” é uma diretriz estratégica, não uma transformação de modelo de negócio já concluída: o verdadeiro teste será o aumento sustentável da receita com clientes externos de wafers, melhoria do yield, custo unitário de manufatura e redução de prejuízos operacionais.
O processo 18A é o ponto técnico central dessa transformação. Em junho, a Intel anunciou que o 18A-P entrou em produção de risco, e afirmou que, comparado ao 18A, ele melhora o desempenho em 9% para o mesmo consumo de energia, ou reduz o consumo em 18% para o mesmo desempenho. Isso pode atrair clientes externos para desenvolvimento, mas produção de risco não é igual a produção em larga escala, tampouco indica yield econômico já atingido.
Os rumores recentes de que as “variações de yield entre wafers foram resolvidas” vêm principalmente de pesquisas na cadeia de suprimentos, não de disclosure oficial da Intel. Por isso, as respostas da gestão da empresa sobre yield, ramp-up de capacidade, tape-outs de clientes e cronogramas de produção podem ser mais importantes para o rumo das ações do que o lucro por ação do período. Se confirmada a melhora de progresso, as vendas recentes podem ser redefinidas apenas como ajuste de expectativas; se houver novo atraso, o valuation do negócio de foundry pode sofrer cortes adicionais.
Relações com Apple, Tesla, SpaceX, xAI e Nvidia devem ser vistas como opções de valor de longo prazo, e não totalmente precificadas de imediato. Apesar de haver acordos preliminares com a Apple para fabricação, faltam detalhes sobre os chips específicos, nós de processo, volume e contribuição de receita; a produção em escala pode levar anos. Entrar no projeto Terafab, liderado por SpaceX, xAI e Tesla, demonstra que a Intel alcançou relevância estratégica com wafers e encapsulamento avançado, mas isso ainda não equivale a grandes volumes de pedidos. Da mesma forma, testes de clientes no 18A ou avaliação de serviços de encapsulamento não se traduzem imediatamente em produção em massa. O framework de investimento ideal é tratar essas relações como opções de alta para o negócio de foundry, mas basear o valuation atual da Intel em receitas verificáveis de CPUs para data centers, pedidos de foundry externo e dados concretos de capacidade e yield.
O verdadeiro ponto a ser provado nesta divulgação não é apenas que a demanda por poder computacional de IA continua crescendo, mas que a Intel finalmente possui capacidade de converter essa demanda em capacidade produtiva, lucros recorrentes e fluxo de caixa positivo de clientes de foundry externo.
Para o futuro do preço da ação da Intel, o cenário positivo requer que a receita do segundo trimestre e o lucro por ação superem a orientação, que DCAI (Data Center and AI) siga acelerando, margens aumentem e, especialmente, que a administração confirme melhoras no yield do 18A e no progresso com clientes externos; o cenário neutro seria de negócios fortes em CPUs, mas sem melhora relevante nas perdas do foundry ou nos cronogramas de produção, resultando em alta volatilidade; já o cenário negativo é de atraso no 18A, guidance apenas em linha ou compressão de margens, o que, com o setor de semicondutores em desalavancagem e múltiplo elevado, pode gerar queda de até 30% adicional nas ações.
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